sexta-feira, 16 de maio de 2014

Modernismo

O modernismo em arquitectura desenvolveu-se durante a última década do século XIX e as duas primeiras do século XX. Apresenta-se como um fenómeno de extensão internacional mas que manifesta diferentes abordagens consoante o contexto cultural dos vários países, como a procura de um estilo ligado ás novas concepções de espaço, ás possibilidades estruturais de matérias como o ferro e o betão e ás necessidades na sociedade e industrial. 


Na literatura, o Modernismo em Portugal surge em 1915 com a publicação da revista “Orpheu”, com a participação de Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro , Almada Negreiros , Luís de Montalvor de Carvalho. Neste revista nasce uma corrente de oposição ao Saudosismo, ao Academismo, ao Nacionalismo e ao Parnasianismo.



quarta-feira, 14 de maio de 2014

A Humilhação

A humilhação sentimental:

A mulher formosa, fria, distante e altiva (Esplêndida; Deslumbramentos; Frígida);

A mulher fatal da época/a humilhação do sujeito poético tentando a aproximação (Esplêndida);

A mulher burguesa, rica, distante e altiva/a humilhação do sujeito poético que não ousa aproximar-se devido à sua baixa condição social (Humilhações);

A mulher fatal, bela e artificial, poderosa e desumana/a consequente humilhação do poeta (“Milady, é perigoso contemplá-la (...)/ Com seus gestos de neve e de metal.”, Deslumbramentos);

A mulher fatal, pálida e bela, fria, distante e impassível que o poeta deseja e receia/a humilhação e a necessidade de controlar os impulsos amorosos (Frígida).

A humilhação estética:

A revolta pela incompreensão que os outros manifestam em relação à sua poesia e pela recusa de publicação por alguns jornais (“Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores/ Deliram por Zaccone”; “Agora sinto-me eu cheio de raivas frias/ Por causa dum jornal me rejeitar, há dias/ Um folhetim de versos.”, Contrariedades).

A humilhação social:

O povo comum oprimido pelos poderosos (Humilhações);

O abandono a que são votados os doentes (“Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes (...)/ O doutor deixou-a...”, Contrariedades);

O povo dominado por uma oligarquia poderosa (a “Milady” de Deslumbramentos é uma representante dessa oligarquia).

Cidade Campo

Cesário Verde retrata uma cidade de contrastes, captando oral, denunciando os opostos, focando especialmente os lugares pobres, descrevendo tudo o que vê, enquanto passeia pela cidade. Pretende captar a primeira impressão que lhe é deixada pelas coisas, projectando para o exterior o seu interior.


A supremacia exercida pela cidade sobre o campo leva o poeta tratar estes dois espaços em termos dicotómicos.

Cesário Verde passou a sua infância entre ambiente citadino (cidade de Lisboa), onde seu pai possuía uma loja de ferragens, e o ambiente rural(Linda-a-Pastora), onde detinha uma exploração agrícola. O binómio cidade/campo é, Por isso, marcante na sua poesia.

O campo não tem aspecto paradisíaco, é um espaço real, onde se podem observar os camponeses no seu quotidiano, onde as alegrias se manifestam face aos prazeres da vida, e as tristezas ocorrem, é a representação do concreto, do real, onde podemos verificar a subjectividade de Cesário pela sua preferência por este local. O campo é associado à vida, fertilidade, à vitalidade, porque não há miséria, não há injustiça que ocorre na cidade. Contrariamente ao campo, o espaço citadino incomoda-o, oprime-o, no sentido em que se apercebe das injustiças cometidas aos pobres. O campo é um espaço de vitalidade, alegria, beleza, vida saudável… Na cidade, o ambiente físico, cheio de contrastes, apresenta ruas esburacadas, casas habitadas pelos burgueses e pelos quintalórios velhos, edifícios cinzentos e sujos.

O campo para ele é como espaço de superação dos limites e da humilhação, espaço de evasão, símbolo de saúde e de vida. O ambiente humano é caracterizado por tudo isto e é neste sentido que podemos reconhecer a capacidade de Cesário Verde em trazer para a poesia o real quotidiano do homem citadino.

Nos seus poemas, Cesário critica a cidade, a capital maldita, devoradora de vidas, denotando-se uma preocupação social sentida, que transporta o leitor para a situação vivida naquela época. Para ele a cidade é um local onde se sente oprimido e os seres femininos que aí se encontrem são apresentados sob uma imagem denegrida e em contraste com as figuras femininas do campo.

A preferência do poeta pelo campo está expressa nos poemas:*De Verão.*Nós. Onde desaparecem a aspereza e a doença ligadas à vida citadina e surge o elogio ao ambiente campesino. A arte de Cesário Verde é reveladora de uma preocupação social intervém criticamente. O campo oferece ao poeta uma lição de vida multifacetada que ele transmite com objectividade e realismo. Trata-se assim de uma visão concreta do campo e não da abstracção da Natureza.

A força inspiradora de Cesário é a terra-mãe, sendo nela que Cesário encontra os seus temas. É por isto que, habitualmente, associa o poeta ao mito de Anteu.

Eu e Ela

Cobertos de folhagem, na verdura, 
O teu braço ao redor do meu pescoço, 
O teu fato sem ter um só destroço, 
O meu braço apertando-te a cintura; 

Num mimoso jardim, ó pomba mansa, 
Sobre um banco de mármore assentados. 
Na sombra dos arbustos, que abraçados, 
Beijarão meigamente a tua trança. 

Nós havemos de estar ambos unidos, 
Sem gozos sensuais, sem más ideias, 
Esquecendo para sempre as nossas ceias, 
E a loucura dos vinhos atrevidos. 

Nós teremos então sobre os joelhos 
Um livro que nos diga muitas cousas 
Dos mistérios que estão para além das lousas, 
Onde havemos de entrar antes de velhos. 

Outras vezes buscando distração, 
Leremos bons romances galhofeiros, 
Gozaremos assim dias inteiro, 
Formando unicamente um coração. 

Beatos ou apagões, via à paxá, 
Nós leremos, aceita este meu voto, 
O Flos-Sanctorum místico e devoto 
E o laxo Cavaleiro de Faublas...

Estilo

Cesário apresenta uma visão objectiva da realidade, exigência própria de quem desejava retratar o que testemunhava. Por isso, a sua poesia é uma descrição da realidade envolvente: Cesário caminha, deambula pela cidade ou pelo campo, e revela-nos todos os cenários e ambientes visitados (poesia do transeunte).

Para tal, socorre-se das sinestesias, pois, apelando aos sentidos corporais, não só descreve, mas consegue envolver o leitor no cenário descrito; das imagens, que pretendem ser uma captação da realidade testemunhada e das sensações despertadas no poeta; dos diminutivos, que servem para mostrar o seu carinho pelos mais desfavorecidos e para mostrar a sua fragilidade face a forças superiores; da modalização verbal, que imprime dinamismo ao seu testemunho, deixando a sua poesia de ser estática, mas notando-se todo o movimento citadino ou campestre.

Cesário é também impressionista. Para além de nos descrever a realidade envolvente, o poeta transeunte deixa também transparecer as emoções que lhe são suscitadas. Atende com particular interesse ao real concreto, a pormenores mínimos desde que lhe sirvam para excitar e transmitir percepções sensoriais. Daí ter construído com realidades aparentemente insignificantes quadros de grande expressividade.

Tal como Eça, emprega a hipálage, jogando ora com o adjectivo, ora com o advérbio, para nos revelar diferentes facetas da realidade ou para jogar com sentidos, impressões e significados relacionados.

Usa originalmente adjectivos e advérbios, através de uma adjectivação dupla, para mostrar as duas faces da realidade – a objectiva e a subjectiva. serve assim o carácter impressionista ao revelar não só o que é visível, mas também a impressão que fica da realidade.

Bibliografia de Cesário Verde

O Livro de Cesário Verde foi editado por Silva Pinto, seu amigo dedicado, meses após a morte do poeta, em Abril de 1887. Esta edição, com uma tiragem limitada a 200 exemplares e destinada apenas a ofertas, era constituída por 22 poemas e apresentava-se dividida em duas secções, intituladas Crise Romanesca e Naturais.

Incluía ainda uma dedicatória e um Posfácio, ambos dirigidos a Jorge Verde, o irmão mais novo de Cesário e o único sobrevivente. Só mais tarde, em 1901, com a segunda edição, O Livro de Cesário Verde entrava no circuito comercial.

Embora nas várias reedições da obra se tenha sempre respeitado a estrutura inicialmente estabelecida para o livro, desconhece-se hoje se Silva Pinto, ao editar o livro, obedeceu a indicações expressamente deixadas por Cesário ou se, pelo contrário, a selecção de poesias e a sua distribuição por secções resultam inteiramente da interpretação crítica do seu amigo. Não obstante estas dúvidas, podemos encontrar em "Crise Romanesca" Responso, Ironias do Desgosto, Esplêndida, Deslumbramentos, Fígida, Setentrional; Contrariedades, A Débil, Num Bairro Moderno, Em Petiz,Cristalizações, O sentimento dum Ocidental e Nós são já poemas incluídos em "Naturais".

Entretanto, compreendeu-se que o conhecimento das poesias publicadas em jornais e revistas, e excluídas d`O Livro de Cesário Verde, contribuia vantajosamente para o estudo da evolução poética de Cesário. Por essa razão, acrescentaram-se ao livro as "poesias dispersas", embora respeitando integralmente a estrutura da obra editada por Silva Pinto. Destas poesias, fazem parte Arrojos, Lúbrica, Cinismos, Proh Pudor, Manias.

Apesar de todos os esforços, a ordenação destas composições e das que foram incluídas n`O Livro nem sempre se baseia, como seria desejável, na data da elaboração dos poemas, visto que um incêndio ocorrido na quinta em Linda-a-Pastora destruiu, segundo se pensa, todos os manuscritos de Cesário e a sua biblioteca, pelo que a ordenação é sempre baseada nas suas temáticas.

Biografia de Cesário Verde

José Joaquim Cesário Verde nasceu no dia 25 de Fevereiro de 1855 em Lisboa, na Rua da Padaria, freguesia da Madalena, e foi baptizado na Sé, ali mesmo ao lado, no dia 2 de Junho do mesmo ano.

O pai, José Anastácio Verde, abastado burguês, era comerciante e lavrador: além de se ocupar da sua loja de ferragens, na Rua dos Fanqueiros, números 2 a 12 (onde actualmente se encontra uma casa bancária), dedicava-se também à lavoura numa quinta em Linda-a-Pastora, a cerca de dois quilómetros da capital, propriedade da família Verde desde 1797.

Foi na quinta da família que Cesário passou grande parte da sua infância, juntamente com os seus três irmãos, Júlia, Joaquim e Jorge, e na quinta se refugiara por diversas vezes ao longo da sua vida. Foi, portanto, entre esta quinta em Linda-a-Pastora e as várias residências que a família Verde tinha na capital - na Rua dos Fanqueiros, Rua do Salitre, Rua das Trinas, Rua Nova da Palma - que Cesário passou a sua breve vida.

Cesário cresceu num ambiente abastado, senão mesmo rico. Consequência da profissão, e talvez da época, predominava na família um conceito de vida utilitário e mercantil, avesso a preocupações religiosas e estéticas. Assim, Cesário não deve ter recebido formação, pois não se encontra na sua poesia referências a deus nem à vida sobrenatural. E, conforme testemunhos dos seus biógrafos, a capela em Linda-a-Pastora fora adaptada pelo pai do poeta a armazém.

Ignora-se onde fez Cesário Verde o curso de instrução primária e também nada se sabe relativamente aos seus estudos secundários. Mas, segundo se conjectura, deve ter começado a trabalhar na loja ainda criança, visto que era o mais velho dos irmãos. Sabe-se, sim, que tinha dezassete anos quando, em 1872, começou oficialmente a trabalhar na loja do pai, como correspondente comercial. Com apenas vinte e quatro anos, substitui o pai na direcção da firma, alargando os negócios. Em 1883, empreende uma viagem a Paris, para tentar assinar um contrato de exportação de vinho português. Apesar de poeta, desde a década de 70 que Cesário não mais deixara de estar envolvido no universo dos negócios, sobretudo na exportação de legumes e fruta para Inglaterra, França, Alemanha, América do Norte e Brasil.

Em Outubro de 1873, Cesário Verde matriculou-se, como aluno voluntário, no Curso Superior de Letras, mas não se apresentou aos exames finais nem voltou a inscrever-se. Segundo Silva Pinto, um dos jovens intelectuais que aí conheceu e que ficou seu amigo "para a vida e para a morte", Cesário, matriculando-se no curso "em homenagem às letras", sofreu uma decepção muito grande que o levou a abandonar o curso.

No mesmo ano, começa a publicar os primeiros poemas no "Diário de Notícias", onde é apresentado como um moço quase imberbe, ingénuo, rosto e alma serena, fronte espaçosa, olhar prescrutador, cheio de aspirações elevadas. A recepção aos poemas publicados foi péssima. Os leitores, habituados ao sentimentalismo romântico, detestaram aqueles versos sobre a realidade quotidiana da cidade e do campo; mesmo os escritores da geração realista (Ramallho Ortigão, Teófilo Braga e Fialho de Almeida, que acabariam por admirar a obra de Cesário), começaram por lhe fazer críticas demolidoras. O poeta, incomodado com esta incompreensão, escreve no poema "Contrariedades", datado de 1876,Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, / Por causa dum jornal me rejeitar, há dias, / Um folhetim de versos.

No entanto, continua a escrever e a conviver com alguns amigos ligados às letras, como o poeta Gomes Leal, Macedo Papança (Conde de Monsaraz) e sobretudo Silva Pinto, o seu colega de faculdade e amigo até à morte. A partir de 1881, convive com os artistas e literatos do "Grupo do Leão", a tertúlia do restaurante "Leão de Ouro", na Rua do Príncipe.

Da sua vida sentimental nada ficou registado, mas alguns dos seus biógrafos referem uma ligação pouco pacífica coma actriz Tomásia Veloso, cujo namorado terá mesmo agredido Cesário num gesto de ciúmes.

Numa carta que em 1877 escreve ao seu amigo Macedo Papança, Cesário queixa-se de problemas de saúde e este é o primeiro sinal da doença que entrara na casa da família Verde como em muitos lares daquele tempo - a tuberculose. De facto, em Abril de 1872, morrera, aos dezanove anos, vítima de tuberculose, a sua "doce irmã" Júlia e, dez anos mais tarde, a mesma doença vitimaria o irmão Joaquim, que contava apenas vinte e cinco anos.

Cesário lutava contra a falta de saúde mas, a partir de 1884, a tuberculose progrediu e o poeta viu-se obrigado a procurar os ares do campo, refugiando-se na sua quinta em Linda-a-Pastora, depois em Caneças e, por fim, no Lumiar. É aí que, a 19 de Julho de 1886, pelas cinco horas da manhã, após proferir "Não quero nada, deixe-me dormir", morre. Tinha trinta e um anos.